A chuva de época estava forte lá fora, os pingos d’água faziam um barulho impertinente ao bater na janela do quarto, que já se apresentava extremamente embaçado. Fazia frio intenso, mas isso não me incomodava o suficiente para me deixar mal, assim como eu estava. Já era fim de dia, quase um tempo de transição entre a tarde e a noite, estava próximo das seis, apesar de o céu não aparentar ser de tal hora, se encontrava opaco, sombrio e escurecido. Assim como o pouco clarão que havia, eu estava me estava me esvaindo, indo embora, retornando a nada, se é que já não era. Devo ser isso. Se é que, isso é ser algo, mas se realmente for, sou. Devo ser uma inexistente, fraca e desistente. Passei alguns minutos refletindo as tolices que havia falado, logo pensando “estúpida”, mais um item para minha lista do que era. Além disso, era covarde, naquela mesma hora avistei o telefone, me vindo um flash-back de lembranças e recordações. Meus olhos tornaram-se a virar para a janela, assim, fui fechar as cortinas, para que, talvez, fizesse diminuir o som da chuva que tornara-se mais intenso, voltei-me a deitar e vi novamente o telefone, aquilo me intimidava profundamente.
Pensei em ligar-lhe, mas repetia para mim mesma que não, não e não. Repetindo para si, “atitude ridícula, de uma ridícula”, saiu de mim até uma risada rápida e irônica por tentar tomar tal ato, “idiota”, tornei a pensar novamente. Voltei-me para a persiana branca tentando não lembrar do que havia pensado á alguns minutos atrás. Mas cogitei a ideia, “eu não perderia nada lhe ligando”, sussurrei baixo quase impossivelmente de me ouvir.
Levantei-me e peguei o telefone, sem ser preciso consultar a agenda por já saber em mente, assim, disquei o número. Pôs-se a tocar, e a cada sinal de que estava chamando, o meu coração batia cada vez mais lendo. Até que, alguém atendeu, reconheci ser você, a voz continuava a mesma. Precisava dizer algo, ou senão, você desligaria, assim, sem mais nem menos, disse:
—Oi… (Falei em tom repreensivo.)
—Alô?
Percebi que se surpreendeu por ter escutado a minha voz. Não esperava? Nem eu esperava isso de mim, eu que sempre fui tão insegura comigo mesma, por que te ligaria justo agora? Pensei em desligar e não retornar mais, mas eu precisaria mostrar que não era tão fraca assim, como você pensava que eu era, ou pra provar que era mesmo. Acho que tu definitivamente não queria ou desejava minha ligação, e ainda não entendi e não sei o porquê de ter atendido-a, apenas deve ter sido para saber o motivo dela. Você parecia impressionado, e eu, em extremo pudor.
—Eu só queria ligara para dizer quer… (Não havia e não sabia mais nada a se falar, ou talvez, eu sabia o que dizer, ou queria e não entendia como explicar.)
—Que? Continue, oras. (Parecia até que tu queria me ouvir, creio que não.)
—Deixa pra lá, eu não deveria ter ligado, você deve estar muito ocupado para me ouvir. Esquece. Esquece que eu liguei e esquece principalmente de mim. (Eu queria dizer tudo, mas tu não entendia, assim como todas as outras vezes que quis te dizer algo.)
—Fala logo, ou desliga de vez.
—Sinto sua falta. (Então, satisfeito? Escutou o que estava engasgado em mim. Sei que tu não sente também, até porque, tu parecia não querer minha presença contigo. Você, literalmente ou não tão literalmente assim, me expulsou da tua vida, me tirou de ti e deixou apenas o amor em mim.)
Passou-se alguns minutos, de silêncio, até que, ele se pôs a falar.
—Você sempre me questionou e sempre me avisou que eu iria te perder, e que iria embora e me deixaria e partiria sozinha. Entendo-te, eu sempre te trouxe mais lágrimas do que sorrisos, e me arrependo todos os dias por ser o culpado de ter causado isso. Digo, esse nosso meio-fim. A verdade é que eu sempre te deixei livre para escolher o que bem entender, ir ou ficar, mas parece que tu decidiu ir de vez. Olha, quando você ligou, eu parecia tremer de tanta vontade e ânsia de te falar tudo. Confesso que não esperava isso, não esperava você.
—Eu decidi ir, mas vou entender se você não me querer de volta. (Não precisaria dizer mais nada além disso, até porque, ele sabia tudo que se passava comigo tão bem quanto eu sabia o que se passava com ele.)
—Tu resolveu ir, e isso não pode mudar os fatos, digo, como estamos agora. Mesmo eu querendo e desejando que você volte, volte pra mim, assim como você também quer isso. Mas temos de entender que, nem tudo é pra sempre, e assim como nós, não fomos e não seremos.
—Compreendo que você queira que eu vá de vez. Acho que precisamos mesmo disso, de dar um basta de vez, um fim, um ponto final nessa nossa situação mal-resolvida e sem jeito.
—Você foi a melhor e a pior coisa que aconteceu comigo. Mas não dar mais, precisamos e temos de entender que nem tudo é como a gente quer.
—Então é isso, acabou. (Meus olhos pareciam ficar úmidos do nada, assim, tentando evitar que não caísse nenhuma lágrima.)
—É. (Ele sempre teve essa mania de ser monossílabo com algo que o subestimava, percebo que não deixou de tê-la.)
—Eu morri para você, você morreu para mim.
A ligação parecia ter terminado, assim como o “nós”.
— Ariel S. (via doce-inverno)
(via 1-simples-menino)
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